fevereiro 01, 2007


As vidas passam por nós, e tentamos guardá-las... Uma folha riscada, um talão de compras, um perfume quase palpável, aquela fotografia. Suplícios de vidas que transformamos em matéria. Acesa.

Rodopia ao sabor da maré, grunhe entre.dentes o teu vapor de sentidos. Deixa-te perder na linha do horizonte [onde me divido]. Onde o ar se fecunda quando pára em si mesmo.

- Aquela recta não existe. Ninguém a pode tocar e duvido que algum dia a vejas tão claramente como eu. Mas escolho guardá-la. Ao lado do guardanapo riscado e da concha salgada. Na gaveta do armário no meu quarto.

Esta casa é demasiado pequena para as minhas incertezas. Está carregada de memórias cinzentas encaixotadas e arquivadas no canto das paredes de cimento. Só me falta um chão e aí talvez volte a pousar os pés. Sem pressas de me afogar.

Quero contar-te as minhas buscas, por cartões e postais sem data. Por brinquedos inúteis que se batem para não sair do topo do armário junto ao tecto.

- Que posso eu guardar de ti? Sem que se perca nos anos de lembranças. Como te transformo em presente desembrulhado na estante da minha pele?

Sei agora o que não vou encontrar ali. As memórias não renascem em papéis ou em canetas de feltro secas. As memórias passam. E nunca chegamos a ter tempo para dar pela falta delas.

janeiro 26, 2007

Boys don't cry ?!

A minha panca ultimamente tem sido contrariar o título desta brilhante música dos The Cure...

janeiro 22, 2007

Culpa?

a culpa não é do sol
se o meu corpo se queimar
a culpa é da vontade
que eu tenho de te abraçar

a culpa não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa é da vontade
que eu tenho de te sentir
a culpa é da vontade que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade

a culpa não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa é da vontade
que eu tenho de te ver

a culpa não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa é do lamento
que suporta o meu cantar
a culpa é da vontade que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade

a. v.

vou viver. mas estou além. tenha pressa de chegar. onde? saudade.
escrevi para ti. onde? ali. ainda é noite, ainda é frio, e o tempo não passou. passaste tu.

janeiro 13, 2007

Inspira, expira (...) Respira

Se bem me lembro, comecei a escrever porque queria compor músicas. Em inglês, como qualquer rocker pedante que pensa que vai chegar a algum lado. Depois, escrevi porque era uma boa sensação, Libertava-me de demónios pessoais e ajudava-me a aultrapassar algumas situações mais complexas da vida de adolescente. Escrever tornou-se tão natural como respirar, até ao dia em que decidi deixar de fazer ambas as coisas. Como comprovam, ainda respiro, mas prometi nunca mais escrever enquanto não pudesse respirar também. Da mesma forma que fazia quando era criança.

Depois de um longo interregno, alguém me mostrou que não precisava de respirar para escrever. Que o abafar da almofada contra a aminha cara podia ser tão mais inspirador do que um repetitivo: inspira, expira, inspira, expira(...)

Agora, passo para o papel a transparência dos meus olhos. Sem um fim maior e sem metas a cumprir. Guardo os demónios e uso-os quando a altura certa chegar. Através dos textos descobri ser capaz de matar sem a culpa dos remorsos. Odeio-me por isso, mas já não o contesto. Resigno-me e espero apenas que o arrependimento não mate. Por agora.

Vou escrever até não respirar. Até que as palavras ganhem vida e deixem de ser meros desenhos no papel. [Aí não haverá forma de parar.] O descontrolo será demasiado devastador para me permitir ter um motivo. [Aí vou parar.] E suportar o sono dos errantes.

dezembro 15, 2006

Um final em mim.



Começou, existiu e teve um fim. Voltou a começar em mim. Sei que nunca terá um fim, mas posso fazer-lhe uma singela despedida.

Conto os dias [ faltam exactamente 16 ] e até lá revivo tudo. ~ Nos passos que demos nunca nos ocorreu que precisássemos dos pés ~ Cada intervalo de tempo em que a mão ameaçava soltar-se, cada aperto dos corpos no momento em que nada se ouvia . Cada cigarro queimado sem diferença aparente do seguinte. Sofro tudo o que tenho de sofrer para não custar mais. Morro nos ínfimos segundos em que deixo de me esconder na sua sombra. | E depois vivo. | Cravo as letras no papel para as obrigar a saírem de mim. Limpo-me, respiro (...) e volto a esvaziar-me.

Odeio ser, mas sou com todas as forças que posso. Odeio estar, mas estou ! com toda a vontade que possuo. Não choro. Não me dou à importância de afogar os olhos em ti.
[Eu sou.]
Sou melhor e pior e mais amargo. Sou aquilo que construí com estas mãos de criança. Sou tudo aquilo que um dia deixaste para trás. Sou aquele que não vai correr mais.
[Eu quero]
Sinto-me capaz. Agora que te amei mais do que a vida, deixo-te. O simples gesto de te procurar é absurdo. Não te vou encontrar porque não existes. Tu és o que eu sou. Existes em mim e apago-te. Com a simplicidade de quem diz que não, eu digo que é fácil.
[Eu vou]

Simples gotas, simples focos de luz que nos acentuam as linhas da cara.
- Desce daí para te poder arrumar de vez nesta caixa. Desce ou arranco-te as asas. Não sei quem és mas quero-te fora de mim. Preciso do espaço que ocupaste. Leva o que já te pertence e sai sem ter de te pedir outra vez.

Só fazes pó, barulho e vento.

[Eu vou]
Agora paro. Descanso-te, pego num punhado de terra e atiro para o buraco. Volto as costas e não te repito na minha cabeça.

Sou apenas a minha descoberta.

Agora que o fim é certo, recomeço. Passo a vez ao destino. À vontade. Ao querer. Vou ser aquilo que estas mãos gastas construírem. Carrego com mais força no papel. Antecipo um derradeiro ponto final .

dezembro 08, 2006

Monólogos dialogantes

- Escuta… Não ouves?
- Não, ouço-te apenas a ti
- Já não é mau.. Mas presta atenção É ela outra vez..
- Ela? Ela quem? Mas estás parvo?
- Não! A sério.. ouve… já se escutam os primeiros murmúrios… Eu sei.. é preciso muita atenção para nos apercebermos da sua longa e lânguida penetração… Mas ela já cá está… A sério! Não acreditas em mim? Então espera… Vês? Vês, como ela já me arranca as lágrimas? Tenho de confessar que já tinha saudades de as provar… Continuam salgadas.. É interessante como tantas coisas mudam, mas o sabor de uma lágrima é imutável não é?… Espera… não vás! Não tenhas medo! Continuo a ser eu… Por favor.. Espera! Merda! A visão entorpecida inibe-me de distinguir as sombras que vejo. …
Vês? Mais uma vez conseguiste afastar-me dos outros…
- Eu? Mas eles nem me vêm…
- Sim mas tu mudas-me, alteras-me, inibes-me, retrais-me
- Eu? Pedro, eu sou tu, faço parte de ti
- Não!! Não fazes… é impossível
- Eu estou em ti…quando ris, quando choras, quando abraças, quando sofres.. Somos um 2 que é um
- Não pode ser…
- Mas é Pedro… Eu sempre cá estive, tu é que às vezes estás demasiado anestesiado para me sentir.. Mas agora voltei e tu já me sentes… Voltei de um fim que, se existiu, foi um início… Respirarás comigo… Sou o teu âmago… E se o esqueceste, cá estou em para te avivar a memória… Sim, porque o coração… Esse sangra.

dezembro 03, 2006

Dormente



Dormente. Apático e senil. Febril. Doente. Dormente.

Regresso a um passado inexistente. Viajo. Tento lembrar-me e não consigo. Cercam-me resquícios desses tempos. Algumas feridas abertas são tudo o que guardo de uma outra vida. Sinto um dejá vu demasido palpável. Avanço, recuo, balanço. Danço. Tanso. Penso em nós. Os vários nós que a vida me deu e que, com a mesma força, me tirou. Acordo de novo para um sono fiel. Recupero os meus asfixiantes 17 anos. Como um interruptor ligo-me a tudo o que era o antes. Folhas de papel marcham na minha direcção. Palavras soltas que me perseguem. Fantasmas. Caras já sem nome que teimam em não deixar os aposentos do meu ser. Escrevo de novo, porque li, porque me reconheci, porque me lembrei do abecedário da dor. Ela continua em mim, inócua. Deixou partir em seu lugar a paixão. Um nome no telemóvel - Paixão. Era ela a paixão. A minha cólera. A partir de agora será amor, ou razão. Nunca paixão.

Apoio-me aqui e ali e onde posso. A ti e a mim. Apoio-me nos que ficam e nos que não. Vejo-os em toda a parte. Nos que chegam e nos que vão. Comparo-os entre si. Prevejo o fim. Mas não troco estes momentos por um eterno início. Tudo é real até doer, tudo é amor até morrer.
Tinha 17 anos e um nome no telemóvel - Paixão. E nunca cheguei a sabê-la de cor. Adormeço, vencido pela fadiga. Quem diria. 5 meses tornaram-se em 5 anos e eu memorizei-os a todos desde então. Sovado, mas inerte. Dormente.

Dormente porque a dor, mente.

novembro 23, 2006

novembro 22, 2006

Renascida das Trevas

Caros alucinados,

Venho por este meio anunciar o meu regresso, qual D. Sebastião desaparecido ou filho pródigo de volta a casa. A MadameZen apresenta-se ao serviço. Comunico, igualmente, que a panca mantém-se, ou melhor, desenvolveu-se galopantemente, mas, sem preocupação de maior, uma vez que aqui há quem "me trate da saúde". Suspeito que a ausência das manifestações comunicacionais deste espaço de revolta, angústia ou, até, hino de vitória, se deva apenas aos desencontros da vida. Não estou equivocada, pois não? Ou terei que afirmar, que sinto uma incomparência comunicativa entre os que cunham no coração a paixão pela comunicação?

novembro 14, 2006

Doce



Qualquer semelhança não é pura coincidência.

Doce. Doce. Vai brilhar.

outubro 30, 2006

Sabem o que eu acho?

Não, claro que não. Aliás, poucos ou nenhuns sabem o que os outros são ou acham. Acham do verbo achar, encontrar. Encontra-se pouco nas gentes, diria que é porque as próprias gentes não se encontram. Esconder, esconder, esconder… o que se sente. Porquê? Um rápido passeio pela blogosfera mais intimista revela pensadores e sofredores, amores e muitas ou poucas dores. E ainda assim, o dia é metálico de tão escondido, máscaras de exageros contidos, abraços sonhados, o toque que não vem, vendido à vergonha e ao parecer… vazios. Ocos, mas somos todos ocos? Devemos então não ser líricos, nem românticos, nem sonhadores e infundados? Certamente, pois, então, afinal… a vida de nada tem de infundado, pois não?

Quebrar as máscaras de dia e de factos e vestir os trapos do Oriente que cheira a nós não é forçosamente despir a alma. É vesti-la de verdade, e alternar com acessórios que mudam conforme os actos. I Acto, II Acto, III Acto, palmas, palmas! Choro, não, bravo, bravo! Luzes, pó que cega, voz que apaixona, olhares talentosos, saudades que apertam. Algum de vocês tem saudades? Dançamos entre palcos, e com medo, quase deixamos de sentir.

Por isso desafio estes soltos pancados num mundo de desafios mais ou menos percebidos, a dizerem o que sentem.

outubro 19, 2006

Ensino gratuito? Por favor...

O nosso antigo ministro da educação, Marçal Grilo, disse a uma entrevista a uma revista portuguesa que a partir do 10º ano devia-se começar a pagar propinas. Eu também acho que sim. Até digo mais, não só no 10º ano, como logo na primeira classe. Por favor, não vamos obrigar os grandes do nosso país a fazer os seus descontos e pagar os seus impostos como a reles raia miuda. Tipo... esqueçam... Querem estudar? Meus amigos querem estudar pagam ... e mai nada!! Mas o que é isto? Ocupar terrenos para aprender a ler e a escrever quando se pode construir mais urbanizações de luxo e mais centros comerciais? Esqueçam ! Pedem dinheiro aos vossos papás, ou então vão trabalhar que há muitos campos no Alentejo para serem ceifados. Isto há com cada uma... Ensino gratuito? Não queriam mais nada não?

outubro 14, 2006

Perfeito

Desfaz-se o tempo em rotinas e vontades
Em projectos e verdades
Em desgostos que se alastram
Em vestígios distorcidos
De nascentes que encontramos
E é sempre quando seguem que
Tudo se tem que agarrar,
Tudo faz fugir,
E a verdade passa a estar
No fundo de um copo cheio do que se quer ser
E a beata no chão que faz os olhos arder
É a nova moda nas crianças que ainda estão a aprender
Como têm que estar e andar e beber e dançar
E comer e falar e ouvir e sentar e sorrir
P'ra saber existir.

Só eu sei ver o Sol nascer
Só eu sei ver o Sol nascer

Desfaço-me em pedaços, em retratos,
Em mentiras que trocámos e abraçámos, sim
Fugimos mas voltámos e o que presta
O que resta em nós.
Fim de festa onde todos sabemos quem somos
Ou quem não se quer lembrar
Ou quem precisa de estar
Perdido noutro sonho
A mesma noite, o mesmo copo
O mesmo corpo, a mesma sede que nao sabe secar
Onde se encontra sem se procurar
Onde se dança o que estiver a tocar
Muito fumo, muito fogo, muito escuro
Onde somos o que queremos
Quase somos o que queremos
Quase fomos o que queremos
ahh...

Só eu sei ver o Sol nascer
Só eu sei ver o Sol nascer

Quase fomos o que queremos
Quase somos o que queremos
Quase fomos o que queremos
Quase somos o que queremos

Só eu sei ver o Sol nascer

Tiago Bettencourt

outubro 09, 2006

Aonde pára a Feira Popular?



Tenho saudades do algodão doce, da casa do terror, da montanha russa e do carapau assado. A romântica roda gigante, o perigoso poço da morte. Os carrinhos de choque. As fichas e as rifas. O popular e o brejeiro.

Devolvam-nos a Feira Popular porque já estão a ficar out as idas ao casino...

outubro 05, 2006

"Whoever wants to know something about me, must observe my paintings carefully and try to see in them what I am"

http://www.iklimt.com


Pela música de peito aberto e pelos traços que se confundem. A alma de quem questiona, e com quem se consegue partilhar. Conseguem? Verdadeiramente expressar e sentir? Ouvir e ler o que não se tem que compreender, apenas sentir em partilha.

setembro 28, 2006

noites frias

É como a crosta, a fina crosta. De um vermelho escuro, próprio de quem sente demais. Há sentir demais? Há. não se faz, está. a procura. Dizem as vozes doces que assim é, tem que ser assim. E no mas, no mas de miúda mentirosa, encarnada de dor e de saudade, persiste a procura. É tão doce, a procura. Bateu à porta 27.000 vezes, pediu pela chave e menosprezou as ciências, riu-se e mexeu os braços com um escondido nervosismo. Até a procura é nervosa. Instala-se dentro, mas não sabe ser forte. Onde está a força então? Não sou eu quem a tem, nem a procura a roubou.

Não ter força e voar com asas de tecido do Oriente. Procura-se a penumbra e os espaços menos claros. Receio… de ver que nada se pode ver, mesmo com os mais brilhantes raios? Odiosos e ilusórios, de luz que promete roubar o peso da inquietude. Noites frias, quero noites frias.

setembro 10, 2006

Constatação (ou a selva onde a máfia há-de reinar)

Existem 1145 PR agencies em Londres.

setembro 09, 2006

O dia seguinte

Que se lixem os falsos moralistas! Que se lixe quem tenta esconder na sua humildade a arrogância! Que se lixem aqueles para quem um perdão não chega! Que se lixem aqueles que esgravatam a dor do outro só para dizer "vês como dói"! Que se lixem os egoístas que só pensam nos defeitos dos outros! Que se lixem as palavras que foram ditas, o arrependimento, as lágrimas... ! Que se lixem aqueles que por quem passámos e que não deixam saudades! Que se lixem os ilusionistas, os manipuladores, os aparentes...! Que se lixem aqueles que nem dão a oportunidade de nos ouvir! Que se lixem os conhecidos voláteis!

A partir de um hoje um novo dia começará. Venha daí essa "aprendizagem"... Para o bem ou para o mal estou diferente, e nada será como dantes.

setembro 05, 2006

The Great Pretender

60 anos faria hoje a voz que deu corpo a esta música. fosse antes por isso que aqui fica.

Oh yes I’m the great pretender
Pretending I’m doing well
My need is such I pretend too much
I’m lonely but no one can tell

Oh yes I’m the great pretender
Adrift in a world of my own
I play the game but to my real shame
You’ve left me to dream all alone
Too real is this feeling of make believe
Too real when I feel what my heart can’t conceal

Ooh ooh yes I’m the great pretender
Just laughing and gay like a clown
I seem to be what I’m not
I’m wearing my heart like a crown
Pretending that you’re still around

Too real when I feel what my heart can’t conceal
Oh yes I’m the great pretender
Just laughing and gay like a clown
I seem to be what I’m not you see
I’m wearing my heart like a crown
Pretending that you’re

Pretending that you’re still around

Queen

agosto 22, 2006

Aprendizagem

Disse a minha cara Maçã, no Ar no seu comentário ao meu anterior post, que o arrependimento é vital porque dele brota a aprendizagem. De facto, tal posição faz-me sentido mas será isso algo positivo? De que serve a aprendizagem quando esta é acompanhada pela desertificação do sentir? De que serve aprendermos a sermos mais justos no próximo "episódio", quando sabemos que isso afectará a forma como pensamos e sentimos as situações e as pessoas? Existem muitas dúvidas a assolapar-me o espírito, e todas elas sem respostas. Se calhar não as tenho que ter, se calhar elas estão no início daquilo que não enxergo, mas preciso de as encontrar desesperadamente. Quem sou eu? Quem são os outros? Até que ponto algo pode continuar quando nela se perdeu tudo o que a fazia existir? Não sei... não sei ... E cá estou a acabar mais um post da forma como comecei o anterior post, com reticências...