dezembro 03, 2006

Dormente



Dormente. Apático e senil. Febril. Doente. Dormente.

Regresso a um passado inexistente. Viajo. Tento lembrar-me e não consigo. Cercam-me resquícios desses tempos. Algumas feridas abertas são tudo o que guardo de uma outra vida. Sinto um dejá vu demasido palpável. Avanço, recuo, balanço. Danço. Tanso. Penso em nós. Os vários nós que a vida me deu e que, com a mesma força, me tirou. Acordo de novo para um sono fiel. Recupero os meus asfixiantes 17 anos. Como um interruptor ligo-me a tudo o que era o antes. Folhas de papel marcham na minha direcção. Palavras soltas que me perseguem. Fantasmas. Caras já sem nome que teimam em não deixar os aposentos do meu ser. Escrevo de novo, porque li, porque me reconheci, porque me lembrei do abecedário da dor. Ela continua em mim, inócua. Deixou partir em seu lugar a paixão. Um nome no telemóvel - Paixão. Era ela a paixão. A minha cólera. A partir de agora será amor, ou razão. Nunca paixão.

Apoio-me aqui e ali e onde posso. A ti e a mim. Apoio-me nos que ficam e nos que não. Vejo-os em toda a parte. Nos que chegam e nos que vão. Comparo-os entre si. Prevejo o fim. Mas não troco estes momentos por um eterno início. Tudo é real até doer, tudo é amor até morrer.
Tinha 17 anos e um nome no telemóvel - Paixão. E nunca cheguei a sabê-la de cor. Adormeço, vencido pela fadiga. Quem diria. 5 meses tornaram-se em 5 anos e eu memorizei-os a todos desde então. Sovado, mas inerte. Dormente.

Dormente porque a dor, mente.

5 comentários:

Masquerade disse...

Triste, mas tocante. Forte, mas bonito. Profundo. Que mexe contigo e com quem está ao pé de ti. Com quem gosta de ti. Provavelmente das coisas mais simples e mais bonitas que já escreveste. Um beijo... aceso, nunca dormente.

Incomparente disse...

Grande post.

cs disse...

Sem dúvida. E essa máscara que para aí anda, bem que podia fazer um post em vez de se esconder em comentários, por sinal, ávidos e precisos.

Aguardamos sedentos.

Navalha disse...

Gostei muito. Sentido, com cadência. É um tema forte, e pesado, mas que não deixaste que se arrastasse. Parabéns. Gostei.

P.

Luthien disse...

Dos textos mais belos e brutais que li nos ultimos tempos =)
Gostei muito muito muito.